Palavreado científico é mais credível

Estava a ler um artigo no Público, sobre produtos para emagrecimento, e lembrei-me de um post anterior que aqui coloquei, sobre o Hípias (menor): Diálogo acerca da mentira.

A uma dada altura do discurso entre Sócrates e Hípias (que se diz perito em matemática), o primeiro questiona o segundo:

«Se alguém te perguntasse quanto dá três vezes setecentos, ¿não serias tu quem melhor poderia enganar e sustentar uma afirmação falsa sem vacilar, se quisesses mentir e nunca responder o que seria verdadeiro? ou, pelo contrário, seria o ignorante nessa matéria quem o poderia fazer melhor querendo mentir, diria talvez a verdade por acaso e sem saber, enquanto que tu, pessoa hábil, se quisesses mentir, mentirias sempre e sem te trair

No artigo do Público, em que a Deco “desmascara” 20 produtos para emagrecimento, uma das estratégias utilizadas nos produtos para convencer o potencial comprador de que se trata de um produto credível, é precisamente a utilização de linguagem científica. A Deco desmascara:

«“Variam as diferenças morfológicas (metabólicas) individuais: obstipação, retenção de líquidos, excesso de apetite (…)”»

significa, em linguagem corrente,

«“Uma coisa é a morfologia de um indivíduo (alto, baixo, etc.), outra as suas características metabólicas, ou seja, a forma como transforma e elimina, por exemplo, as gorduras e os hidratos de carbono”»

Portanto, o que parece ser uma informação credível, científica, complexa (porque não a entendemos), é na verdade algo bastante simples e que até a uma criança poderia ser explicado. Já aqui especulei mais do que uma vez que o facto de se ser autor, ou considerado perito numa determinada matéria, faz com que a informação ganhe uma outra consistência, ou credibilidade, que seja de certo modo uma verdade tida como segura.

Além do nome (de autor, ou marca – vai dar ao mesmo), e da linguagem “científica”, outros modos de enganar podem ser utilizados:

«“Desconfie dos produtos ou dietas que prometam uma perda de peso fácil e sem esforço. Tenha o mesmo cuidado face a alegações de conhecimento científico, cura milagrosa, ingrediente com segredo e remédio tradicional. Termos como “sensação de saciedade” ou “termogénese” também devem fazer soar as campainhas. Produtos que afirmem ser seguros, sobretudo por conterem substâncias ditas naturais, ou incluam histórias não documentadas, com testemunhos de consumidores ou médicos, reclamando resultados fantásticos, são ainda de rejeitar”»

Isto faz-me lembrar também as compras online, nomeadamente na Amazon. Não podendo ver o produto (ou pelo menos tocar-lhe, experimentá-lo), é comum consultar os comentários que os compradores colocam, conhecer as várias opiniões, saber se a coisa é fiável ou vale a pena. Eu pelo menos faço sempre isso. Desde que li que alguns são colocados pela própria empresa que desenvolve o produto, pessoas contratadas pela mesma (nos comentários positivos) ou concorrentes (nos comentários negativos), sinceramente nem sei muito bem o que pensar. Acho que se num mesmo produto oscilarem demasiado as opiniões é porque algo não bate certo. No entanto, é um pouco difícil averiguar a vericidade das afirmações. Eu pelo ainda não encontrei nenhuma forma de o fazer, vou confiando um bocado no instinto e na experiência enquanto comprador…

Como verificar a vericidade de uma afirmação, hoje em dia?

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One response to “Palavreado científico é mais credível

  1. Pingback: Amazon’s Customer Reviews Credibility | This is an Author's Blog

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