Category Archives: Authorship / Autoria

A credibilidade de uma opinião

«Uma história ou uma opinião deve ser julgada
em última instância pelos seus próprios méritos.
A credibilidade de quem a defende não lhe garante
a verdade. O maior especialista pode enganar-se;
o mentiroso mais descarado pode estar a dizer
a verdade.»
Mário Moura, em Ressabiator, 25/08/2012

Será que levamos isso em conta quando compramos um livro do autor X ou Y?

Ainda ontem estava a ler um texto da escritora Margarida Rebelo Pinto (se bem que depois de ler o texto questiono se o termo “escritora” se lhe aplica—deverá antes constituir uma ofensa para outros escritores), que tem circulado pelas redes sociais e levantado polémica, e uma coisa em que reparei é que nem toda a gente (que tinha comentado nas redes sociais) se tinha apercebido de quem tinha escrito. Talvez essa seja uma das características da Internet: a diminuição da importância do nome de autor. Se formos a ver, na página do comentário no Jornal Sol o nome nem aparece em destaque. Eu confesso que só depois de ter lido a famosa crítica me apercebi de quem a tinha escrito.

De qualquer das maneiras, o ser uma autora com vários livros publicados, aqui, de nada lhe valeu. A opinião foi desprezada e criticada em larga escala, como bem merecia.

This is a Reliable Thing

Back cover of the book I developed for the Rookie contest, animated.

Palavreado científico é mais credível

Estava a ler um artigo no Público, sobre produtos para emagrecimento, e lembrei-me de um post anterior que aqui coloquei, sobre o Hípias (menor): Diálogo acerca da mentira.

A uma dada altura do discurso entre Sócrates e Hípias (que se diz perito em matemática), o primeiro questiona o segundo:

«Se alguém te perguntasse quanto dá três vezes setecentos, ¿não serias tu quem melhor poderia enganar e sustentar uma afirmação falsa sem vacilar, se quisesses mentir e nunca responder o que seria verdadeiro? ou, pelo contrário, seria o ignorante nessa matéria quem o poderia fazer melhor querendo mentir, diria talvez a verdade por acaso e sem saber, enquanto que tu, pessoa hábil, se quisesses mentir, mentirias sempre e sem te trair

No artigo do Público, em que a Deco “desmascara” 20 produtos para emagrecimento, uma das estratégias utilizadas nos produtos para convencer o potencial comprador de que se trata de um produto credível, é precisamente a utilização de linguagem científica. A Deco desmascara:

«“Variam as diferenças morfológicas (metabólicas) individuais: obstipação, retenção de líquidos, excesso de apetite (…)”»

significa, em linguagem corrente,

«“Uma coisa é a morfologia de um indivíduo (alto, baixo, etc.), outra as suas características metabólicas, ou seja, a forma como transforma e elimina, por exemplo, as gorduras e os hidratos de carbono”»

Portanto, o que parece ser uma informação credível, científica, complexa (porque não a entendemos), é na verdade algo bastante simples e que até a uma criança poderia ser explicado. Já aqui especulei mais do que uma vez que o facto de se ser autor, ou considerado perito numa determinada matéria, faz com que a informação ganhe uma outra consistência, ou credibilidade, que seja de certo modo uma verdade tida como segura.

Além do nome (de autor, ou marca – vai dar ao mesmo), e da linguagem “científica”, outros modos de enganar podem ser utilizados:

«“Desconfie dos produtos ou dietas que prometam uma perda de peso fácil e sem esforço. Tenha o mesmo cuidado face a alegações de conhecimento científico, cura milagrosa, ingrediente com segredo e remédio tradicional. Termos como “sensação de saciedade” ou “termogénese” também devem fazer soar as campainhas. Produtos que afirmem ser seguros, sobretudo por conterem substâncias ditas naturais, ou incluam histórias não documentadas, com testemunhos de consumidores ou médicos, reclamando resultados fantásticos, são ainda de rejeitar”»

Isto faz-me lembrar também as compras online, nomeadamente na Amazon. Não podendo ver o produto (ou pelo menos tocar-lhe, experimentá-lo), é comum consultar os comentários que os compradores colocam, conhecer as várias opiniões, saber se a coisa é fiável ou vale a pena. Eu pelo menos faço sempre isso. Desde que li que alguns são colocados pela própria empresa que desenvolve o produto, pessoas contratadas pela mesma (nos comentários positivos) ou concorrentes (nos comentários negativos), sinceramente nem sei muito bem o que pensar. Acho que se num mesmo produto oscilarem demasiado as opiniões é porque algo não bate certo. No entanto, é um pouco difícil averiguar a vericidade das afirmações. Eu pelo ainda não encontrei nenhuma forma de o fazer, vou confiando um bocado no instinto e na experiência enquanto comprador…

Como verificar a vericidade de uma afirmação, hoje em dia?

Common Fallacies

Interesting infographic by Information is Beautiful.

I selected some, many more are in the above link. The first image relates directly to my dissertation theme: the relationship of visual design with online perceived credibility. The rest focus on lies, truth, and ways to prove both.

Lee Friedlander

Lee Friedlander (born July 14, 1934) is an American photographer and artist. In the 1960s and 70s, working primarily with 35mm cameras and black and white film, Friedlander evolved an influential and often imitated visual language of urban “social landscape,” with many of the photographs including fragments of store-front reflections, structures framed by fences, posters and street-signs.
via en.wikipedia.org

There’s always a somehow hidden detail in Lee Friedlander’s photographs. I love the way he instead of hiding the city’s “less pretty” objects, such as street-signs and fences, tries to include them in the photographs.

Dissertação

Só para dar um cheirinho da dissertação que aí vem, lá para Outubro/ Novembro deste ano:

{

A quantidade de informação disponibilizada online provocou uma mudança de paradigma no modo de avaliar a sua credibilidade. Tendo em conta que qualquer um consegue produzir conteúdos para a web, sendo o processo de publicação simplificado, contrariamente ao que se verifica no impresso, o autor deixa de ser uma marca de fiabilidade. Estudos recentes indicam que os utilizadores prestam mais atenção aos chamados “aspectos superficiais” de uma página, como as suas características formais, do que ao conteúdo (Fogg et al. 2002; Flanagin, Metzger 2007; Robin, Holmes 2008; Alsudani, Casey 2009).

Torna-se assim pertinente compreender de que modo é contruída esta noção de credibilidade através dos aspectos visuais da página. Nos vários estudos conduzidos nesse sentido (Fogg et al. 2002; Consumer Webwatch 2002), as diferenças entre a credibilidade percepcionada em websites de diferentes categorias é notória. Se, num site de saúde o utilizador se preocupa mais com a veracidade da informação, num site de entreternimento verifica-se exactamente o contrário, por exemplo. Nota-se, também, um campo de investigação pouco desenvolvido em torno das características que contribuem para uma maior percepção de credibilidade na aparência visual. Conjugando estes dois factores, considera-se relevante compreender de que modo as relações entre os vários elementos visuais que constituem uma página web, contribuem para a percepção de credibilidade. É neste sentido que se pretendem aplicar os princípios da Gestalt, identificando quais os mais importantes no desenho da credibilidade de uma página (designing credibility), e na concepção de uma unidade visual.

 «The more the home page of a web site achieves ‘Unity’ in its design, the more it is considered to be credible from the first look.» (Alsudani, Casey 2009, 7)

O estudo da credibilidade remete para os escritos retóricos de Aristóteles, não se configurando como algo de novo. Aquando da difusão da televisão nos anos 50, o assunto obteve particular relevância, havendo uma preocupação nas diferenças na credibilidade percepcionada entre o novo meio e os jornais. Similarmente, a sua reincidência a partir dos anos 90, configura-se com a emergência da Internet, da Web e de preocupações académicas e profissionais com estas tecnologias (Metzger, Flanagin 2008, 7).

A noção de credibilidade diferencia consoante a disciplina. Enquanto que nas ciências da comunicação ela se prende principalmente com a percepção do utilizador, na ciência ela remete para o carácter do conteúdo. Convive comummente com os conceitos de confiança, fiabilidade, precisão, reputação, qualidade, autoridade e competência (Metzger, Flanagin 2008, 8).

A maioria dos autores concorda que a credibilidade é constituída por duas dimensões: a fiabilidade (“trustworthiness”) e a peritagem (“expertise”). Um objecto que tenha altos níveis de fiabilidade e peritagem é tido como altamente credível. Existem, no entanto, contornos, não sendo sempre necessário que as duas dimensões coexistam em simultâneo, consoante o contexto no qual o objecto se insere.

Tseng e Fogg (1999), identificaram quatro tipos de credibilidade: presumida (presumed), superficial (surface), reputada (reputed) e ganha (earned). A primeira relaciona-se com as assumpções comuns do utilizador, a segunda com os aspectos superficiais ou as primeiras impressões, a seguinte com a influência de terceiros e a última com a experiência e as expectativas do utilizador/consumidor. Tendo em conta o contexto da investigação, é principalmente na segunda que nos iremos focar.

«In some contexts, the surface credibility of a computing product is critical because it may be the only chance to win over a user. […] Because there are so many Web pages to choose from, and there may not be clear guidelines on which pages are “best,” it’s likely that Web surfers seeking information will quickly leave sites that lack surface credibility.» (Fogg 2003, 133)

[…]

}

Are you an author? I know I am.

Being an author nowadays seems to be something very similar as playing a game: you might not know the other players, as they might not know you, but if you play the right cards, you’ll stay in the game for a long, long time…

«Today, few question the notion that digital, networked media have profoundly changed the information landscape, as well as the means of social interaction. Perhaps the greatest change is that digital media have provided access to an unprecedented amount of information available for public consumption. Until recently, the enormous cost and complexity involved in producing and disseminating information limited the number of information providers, who generally had substantial financial investment in the media apparatus. Network and digitization technologies, however, have lowered the cost of information production and dissemination, thus increasing the sheer amount of information available. Indeed, the adage “On the Internet, anyone can be an author” is largely true, barring, of course, a few wellknown caveats about cost and access to technology.»

METZGER, Miriam J., FLANAGIN, Andrew J. (2008) – Digital Media and Youth: Unparalleled Opportunity and Unprecedented Responsibility. Em: METZGER, Miriam J., FLANAGIN, Andrew J. (eds.) (2008) – Digital Media, Youth, and Credibility. Cambridge, MA: The MTI Press, pp. 12-13